Xadrez (3) – Aberturas e Gâmbitos

Há um tempo que pensava em jogar Xadrez seriamente, coincidentemente há inúmeras pessoas procurando o jogo por causa de uma série do canal Streaming Netflix, que leva no nome uma tática chamada ‘Gâmbito da Rainha”, quando você oferece sacrifício da peça Rainha, a série por sua vez foi baseada na história real de Bob Fischer (m. 2008), considerado o maior jogador de Xadrez. Mas não, não vi a a série, por ser um romance de época tenho muito menos interesse, a minha perseguição ao Xadrez tem origem há mais de 2 anos e com um certo tom nostálgico, uns 20 anos por aí.

O clássico jogo estratégico pode ser uma combinação de táticas e ações por turnos que podemos analisar como sendo uma forma de prever lances e montar o jogo antes dele acontecer. Sou oriundo de muitos jogos de estratégia, e até recentemente (ainda) o MTG (Magic the Gathering), que defendo não ser um jogo de estratégia. Há quem discorde, mas se avaliarmos pela probabilidade de ter sorte, podemos considerar que MTG é um jogo que utiliza a teoria de jogo de simulação e não apenas de Soma-Zero.

A teoria de jogos é um estudo que avalia os objetivos dos jogos e seus sistemas. A Soma-Zero é todo jogo que quando resulta em uma vitória de alguém e o seu adversário, o outro, perde. Xadrez e MTG são Soma-Zero. Mas possuem uma infraestrutura distinta. Um prevê o controle e a informação perfeita. O outro prevê a probabilidade do controle e da informação, descrevo essas características respectivamente.

Durante minhas jogatinas em MTG, notava que independente de obter uma boa construção de deck minhas investidas em jogo dependiam das probabilidades e não da minha inteira habilidade. Em Xadrez temos a revelação plena das peças do jogo, a liberdade baseada nas regra de fazer lances, regras dos pontos por lances, xeques, mates, empates… o que me fez redescobrir que mais que a vitória, Soma-Zero, há mais em jogo do que se percebe.

E diferente de Magic, em Xadrez podemos nitidamente perceber a intenção do oponente. Podemos leva-lo para onde queremos, premeditar suas jogadas e sobretudo cercar seu front. Em Magic as aberturas (lances iniciais) são praticamente nulos. Eles são basicamente a ‘sorte’ que você tiver, será a sua primeira impressão. No Xadrez normalmente há uma cartilha para seguir, dado nossa liberdade de tomar os lances, normalmente há uma defesa em liberar o caminho do bispo e da rainha, movendo o peão da frente do rei duas casa.

Fazer o roque menor, para proteger o rei. Mover os peões antes da Torre, Bispo, Cavalo. Não deixar o rei encurralado ou nos cantos. Aproximar das casas do centro. Mas em Magic pouco se tem êxito em ter aberturas que possam garantir um jogo inteiro. Normalmente podemos desconsiderar parte de qualquer análise sobre como uma mão favorecida poderia mudar o jogo. Seja no início, meio e fim de uma partida. Em Xadrez certos lances podem definir a partida.

Em Xadrez há forma de mapear partidas:

  • Avaliação da partida por cálculos;
  • Avaliação da partida por Notação Algébrica (Notação dos lances);
  • Teorias de algum enxadristas ou filósofo de estratégia, aplicável;
  • Avaliação de lances importantes;
  • Jogadas pessoais;
  • Aberturas e ações de gâmbitos.

Em Magic:

  • Por ser aleatório, não há como avaliar partidas e nem definir aberturas;
  • São consideradas ações e táticas de momento;
  • A estratégia é praticamente obsoleta durante a partida;
  • Analisar inúmeras combinações das saídas cartas se torna mais ainda impossível.

Podemos dizer que teoricamente um jogo de Xadrez tem mais racionalidade por gerar certeza e controle do que um jogo de Magic. Que banaliza parte dos conceitos de pensamento e raciocínio lógico. Um jogo que baseia na sorte sem promover nenhuma inteiração, acaba por não ter qualquer cuidado com precisão ou previsão. Durante 1 ano de jogo eu não ouvi em nenhum momento alguma metodologia científica que provasse uma tática.

Em menos de 3 horas de leitura, sem exagero, de Xadrez, eu li sobre o Random de Fischer (são as possibilidades de 900 posições que as peças podem ter na abertura), Cálculo de Shanon, Notação Algébrica, Teoria de jogos…só para contar no dedo quais teoremas criavam um aspecto ciência de Xadrez. Onde não há qualquer interferência da probabilidade. E sim da premissa, suposição e análise.

Cada partida de Xadrez é movida por sua experiência e prática. Então quanto mais jogar, mais habilidade irá ter. Não podemos falar a mesma coisa de MTG. Existe um impacto negativo em relação ao jogo de cartas. Em MTG é notório que a experiência pessoal conte menos do que um deck caro que possui respostas dignas. Uma pessoa experiente sabe operar este deck. Mas apenas se ele for caro e potencial, essa pessoa vai conseguir ganhar.

No Xadrez, a vitória corresponde ao conhecimento da pessoa. E sua experiência é levada em consideração a cada movimento realizado. Se você passar 1 ano jogando, será bastante competitivo em uma partida. Vai evitar erros triviais, podendo inclusive inventar jogadas. O que é bastante frustrante em Magic. Daí minha conclusão dele não ser necessariamente um jogo estratégico. Ele está mais para jogo de azar, que foi o primeiro artigo – clique aqui para ler. (Há mais de 1 ano).

Fiz algumas partidas contra seres humanos através do site Chess.com, que parece ser o melhor site da atualidade do assunto. E é mais interessante jogar contra seres humanos. Bots tem respostas mecânicas. E não correspondem a intuição, que é justamente o objetivo desse jogo. Gerar reações e dessas, respostas que solucionam o problema. Bots normalmente fazem o movimento esperado para jogatina, e normalmente não erram.

Nós seres humanos erramos e tornamos as partidas mais naturais. Então quando coloco um bispo dando sopa para ser capturado, será que um ser humano morde a isca? Ele pode perder o cavalo para um peão bem posicionado. Ou ainda o tal do peão envenenado. Um Bot ignora e normalmente age em sintonia com sua programação. O ser humano age com algum ímpeto:

  • Solucionar o problema, ignorando a chance de vitória;
  • Errar um lance;
  • Pensar em criar um cerco nas peças importantes;
  • Criar condições de vitórias múltiplos.

Nestas partidas eu tive mais consciência dos meus atos do que em 1 ano de Magic. Que eu não sabia se iria sair alguma carta boa. Se iria sair um terreno. Ou uma carta coringa. No Xadrez eu tenho lugar para inventar. Em Magic não há espaço para criatividade. Durante a jogatina você pesca. Se levar um Salmão para casa é sorte. Em Xadrez você encontra o Loch Ness e registra.

Ainda que pareça, essa comparação entre os dois jogos, não desgosto de um ou de outro. Ou um é mais que o outro. Mas quanto mais jogo Xadrez, mas vejo o quanto MTG é um Poker de 1/1000 de chances. Mas já tinha um pé na crença que MTG era jogo da azar, fazia muito tempo.

Xadrez (1) – Fundamentos Básicos de estratégia

Base estratégica.

Xadrez é um jogo de estratégia antigo que possui diversos formatos, o mais famoso deles, é o xadrez clássico que lida com um tabuleiro de 64 casas (8×8) com 16 peças para cada jogador atendendo uma regra de limite de tempo por jogada e partida, e regras e vantagens por peças. Não depende da sorte em nenhum momento e exige visão de campo, previsão, paciência e atenção.

Até o artigo 64 de Magic The Gathering, leia sobre o diretório, finalizei (não vou deixar de publicar artigos por lá) que MTG pode ser considerado um jogo de simulação e orientação de estratégia, que se baseia na sorte para obter resultados de vitória ou de derrota. Ao contrário do jogo Xadrez. Que depende inteiramente de sua tática e esquema.

Procurei por um longo tempo no ano passado sobre boardgames de RPG e acabei encontrando um jogo de estratégia (MTG) e dali me inteirei sobre tudo que era material. Agora no final de 2020, acrescento na família, o xadrez. Que já era um velho conhecido. E que esteve presente em mais vezes do que eu posso contar. Todo jogo de estratégia utiliza as teorias de Xadrez para sua aplicação, o próprio MTG quando a sorte permite.

Tabuleiro x Cardgames.

Durante o meu período de 1 ano em MTG, senti que a criação de Decks era a fase mais importante do cardgames. Garantir uma forma de aplicar a estratégia com outra estratégia, conhecida como engenharia de deck. Era enfadonho, continua sendo. Exige pelo menos no cardgames físico ter um poder de aquisição considerável para se ter uma chance na mesa.

É uma verdade que tem que ser dita. MTGA mascara bem isso, porque você aparentemente não precisa ‘pay-to-win’ para tirar o melhor deck. Mas ainda sim há quem gaste ‘money’ real para conseguir os packs necessários. Diferente do físico, no virtual você não tem card avulso. Precisa comprar booster para tirar a carta essencial. E há uns usuários espertinhos que vendem contas com um número incrível de cartas por um valor alto….sim existe já isso.

Apesar de pensar que Xadrez é um jogo elite, nós temos um contrapeso enorme quando analisamos as chances de vitória e como a vitória ocorre. É certo que se você é jogador de Magic há muito tempo, pode vir a discordar dessa visão. Mas decks baratos (Groselha) tendem a ser menos eficientes em jogos de competição. E mesmo que muitos falem que é possível, é uma fala meio ‘for fun’. No fundo todo mundo sabe que os decks mais potentes são os mais caros.

Em Xadrez você não precisa comprar carta, não existe rotação. Você só precisa treinar todos os dias e jogar. Não precisa nem levar o tabuleiro, dependendo de onde você vai jogar. Se for num clube, numa loja, na casa do amigo, no campeonato, você só precisa levar o seu cérebro. Você não gasta nada. Percebe? Os valores dos prêmios de torneios são maiores que o da Wizard.

E embora muitos de fora possam imaginar que jogar xadrez é sopinha no mel (fácil), discordo. Especialmente se você entende de estratégia. Nada em Xadrez é óbvio. Você precisa ter uma atenção redobrada e já pensar em cenários possíveis antes da abertura. Porque você tem que pensar em quais as possibilidades que o seu oponente pode criar diante de seus lances.

Em MTG depende muito da sua mão e isso é que cria a sensação virtual de cenários imprevistos. Na maioria das vezes você precisa criar decks que funcionem como uma espécie de fetch. Cartas que buscam cartas para garantir que alguma estratégia ocorra. Mas as fetchs são cartas caras…caríssimas. Não é muito acessível. Já o Xadrez até para quem não possui muito, basta a tática mental para garantir algum retorno. Por isso citei que apesar do Xadrez parecer um jogo elite ele é ao contrário.

MTG é um jogo muito bom, não dispenso, ele me treina a pensar em cenários desfavoráveis e como lidar com situações beco sem saída. Mas não preza a parte que eu mais me interesso, a estratégia. Ela não depende muito de mim. Eu dependo da sorte e do azar do oponente para conseguir virar ou ganhar o jogo. E essa é uma habilidade única. Reviravolta em um jogo desvantajoso. Parabéns aos que conseguem revirar.

Mas ainda tenho interesse em continuar controlando minhas ações a todo momento do que depender da sorte para ter esse controle ou parcial controle. Mas jogar MTG nos ensina sobre algo que em Xadrez você levaria uns 10-15 anos para ter. Aquela pulga atrás da orelha. Quando a gente pensa como as peças vão se encaixar. Quais peças dos oponentes podemos superar, tomar ou desviar? Ou realizar o famoso lance de Gâmbito? Atrair através de um lance arriscado.

Em MTG em especial as manas que usam o famoso sacrifício, elas precisam pensar em muito, e normalmente se for a longo prazo, precisa rezar para que as cartas seguintes possam completar a tática. Em Xadrez tem movimentos no primeiro turno que influenciam suas chances no décimo terceiro ou vigésimo turno, e que você pode desfrutar se souber lidar com os cenários, é aqui que entra o papel do MTG no Xadrez.

Joguei algumas partidas e já me inteirei de regras, vantagens, notações que o Xadrez possui. Você aprende qualquer coisa rápida depois da montanha complexa que o MTG possui. Eu levei uns 3 dias. E em xadrez leveis um pouco menos de 1 dia. Fiz algumas jogatinas no chess.com, tenho até uma versão virtual para o RV (Ultra Chess) , e obtive um resultado satisfatório. Indo para dificuldade desafiadora.

Usando algumas regras da cartilha de jogadores PRO famosos, é de sempre pensar em turnos à frente. Coisa que a gente pensa também em MTG. A diferença é que em um temos uma chance de garantir a vitória e o outro depende do que vai sair. Que pode ou não nos oferecer algum resultado positivo. Em MTG tua experiência influencia de uma forma indireta suas jogada. É certo que passar 20 anos jogando MTG você vai ter algo para tirar de proveito.

Mas é diferente da proporcionalidade de jogos de estratégia pura, como o Xadrez. Quanto mais você joga pelo tempo que for, maiores serão suas táticas e mais imbatíveis será sua força. Porque como a sorte não influencia, você tem a proficiência de suas jogadas totalmente ao seu favor. A abertura do Xadrez (os primeiros lances) é uma compilação de várias jogadas. Você sabe para onde ir, colocar as peças mais no centro da tabuleiro, evitar cantos, fazer o roque, pensar em táticas de coroação, prever os movimentos do oponente. Garantir sua posição e fazer xeque-mate.

Em MTG você não controla nada…nada mesmo. Você depende de um bom deck, normalmente caro, para garantir que a sorte seja menos influente. E precisa ganhar para resgatar o valor desse deck. Pelo menos. Eu acho que até fazer campeonatos para MTG surte uma sensação injusta. Porque você praticamente coloca a mercê de inúmeras combinações de decks poderosos para gerar inúmeros outros cenários que podem te favorecer ou não. Não é exatamente um jogo, ele não é linear e tampouco harmonioso. Suas ações são dependentes dos fatores incontroláveis.

Nem esporte na prática. Será sorte que um tenista, que uma atleta de ginástica atinja aqueles pontos? Ou será maestria consciente? Ela sabe o que está fazendo e utiliza ao seu favor tudo? A competição precisa sempre ter o controle. E jogos de azar não oferecerem estes quesito. Portanto ao meu ver, o MTG ocupa o lugar de como que eu falei no último (64) artigo de Magic, um jogo de orientação e simulação.

Ele orienta cenários imprevisíveis. Com uma mão desfavorável em um cenário mais negativo ainda, temos as chances de obter resultados positivos? Não há uma garantia certo? Garantia de vitória não é consumação de vitória. É uma certeza que precisa ser concretizada ainda. Mas seria o mesmo que pensar da seguinte forma:

  • MTG é um risco alto para investimento, sem garantias e depende de muita injeção monetária (Deck caro) e de consultores habilidosos (Jogadores PRO);
  • Xadrez é um risco variável de investimento que depende do adversário (mercado), não existe muito injeção monetária, ou pode ser feita (estudos e tutores de Xadrez) e que constrói os jogadores habilidosos ao longo do tempo.

O primeiro só garante um retorno, e olhe lá, se o jogador for bom e o deck também. Com tantas combinações não sendo possíveis determinar quais, você não tem muita certeza de retorno.

Em Xadrez você não coloca um montante, então não tem pressa de resgatar. Normalmente você depende da habilidade humana para conseguir um resgate ou o prêmio, e é possível garantir mais ainda essa performance pelo tempo de seu treinamento.

Em ambos os casos, você tem um retorno muito bom caso logre êxito, um deles (MTG) você tem um alto risco contra um baixo ou médio risco (Xadrez).

Quais dos dois investimentos você prefere?

Ao longo de minhas experiências, em MTG você garante diversão e aprendizado sobre variabilidade. Mas o menos importante, até por ser um obstáculo um tanto colossal, é ganhar o jogo. Xadrez não é um jogo trivial e nem impossível. Ele é um jogo que respeita o que você sabe. Seu risco é enorme, mas você garante pelo menos que o risco pode ser o que você quiser, dependendo de suas habilidades e experiência.

Jogar dados sempre tem um lado ruim. Em DnD você pode considerar duas formas de jogadas:

  • Para dano, Saves, Skills usar o dado ou o valor inteiro que ele provoca.

Quando você usa o dado, o dano, saves ou skill podem gerar mais possibilidades. Sim. Mas pode gerar menos possibilidades. Quando consideramos que o valor inteiro é nossa vantagem. O mesmo acontece quando consideramos o Xadrez. A rainha (dama) é a peça mais poderosa do jogo. Sem sombra de dúvida. Mas imagina se você não tivesse autonomia sobre ela.

Por alguma razão. Ela teria tanta autonomia? Seria tão poderosa? Não. O mesmo vale para os peões. Que você pode pensar, são descartáveis. Longe disso. Peões normalmente são os lances que usamos para diagnosticar o campo de batalha. E de transforma-los em Rainha, Cavalo, Torre ou Bispo (coroação\promoção). E assim, eles ficam menos descartáveis, certo? Já imaginou em ter nove rainhas?

No Xadrez um sapo de MTG 1/1 consegue se tornar um URO 10/10. E você tem o controle disso. Reparou? Mais precisa quebrar a defesa do seu oponente antes, que assim como você, também tem o controle. Isso sim é um duelo. Ambas as partes tendo o controle, oferecendo ao jogo em geral uma visão de tática. Em MTG, um anão de jardim pode vencer o Drogon de GOT. Mas por sorte.

Em Xadrez, o Drogon mataria parte das peças, e você ainda precisaria ter uma bela tática para isola-lo ou usa-lo ao seu favor. Mas é sem dúvida que um dragão seria um inimigo supremo em campo, correto? Estratégias não é sorte. Nunca foi e nunca será. Embora goste bastante de MTG, minhas jogatinas de um ano, me mostraram que apesar do elemento estratégico presente ele depende de uma boa mão, de uma boa abertura.

E não temos muito disso, temos é uma seletiva. Onde podemos garantir alguma coisa dependendo da sorte. E se você precisa da sorte, em menor ou maior escala, para ter uma ação. Você não tem um jogo de estratégia. Você tem um jogo de azar que depende de todos os fatores que você não influencia ou controla. Mas o MTG é uma lição para quem quer arriscar e manter o controle no Xadrez. É um verdadeiro preparatório.