Obras que cativam pela forma que são elaboradas é um exemplo que acontece neste conto de Lovecraft. A crônica é sobre um misterioso navio e desaparecimentos de pessoas. Primeiro tudo é contado como se fossem missivas com cortes de informação feitas em um arranjo do tipo por datas, com fatos omissos.
É definido assim, versão curta. É como se fossem pareceres que foram recolhidos de uma cena do crime, no entanto, somos levados a crer que o navio tem um mistério sobrenatural. Assim nos levamos em uma narrativa que parece uma brincadeira típica de nossas infâncias conhecida como “Repete a última coisa que falei com a parte nova”.
Como se fosse um truque de mágico querendo nos iludir para esconder a moeda. Depois que a parte curta é apresentada. Vem logo em seguida a versão longa, que inclui no texto, as partes ocultas que revelam que nada de misterioso há e tampouco sobrenatural, e sim uma comitiva pirata que havia deflagrado com problemas, pessoas em lugares diferentes e motivos bem menos nobres.
Muito das narrativas de Lovecraft não são exatamente sobre anormalidades. E o seu uso da escrita prioriza os detalhes como uma forma de contar com o suspense, como se tudo fosse normal e que por acaso, ali, escondido nas moitas, houvesse apenas um ser estranho, quando você apenas pensa em regar as plantas. Foi assim com o conto “O que vem da lua” deste mesmo autor.
Assim se repete pelo Stephen King quando elabora a narrativa, espreitando apenas detalhar a cena, como se tratasse de um texto arranjado sobre decoração de interiores, e no final, estavam querendo nos inserir na cena de tão concreta que ela seria. E de repente, faz uso da linguagem comum, para apresentar o monstro, o fantástico, o sobrenatural e o segredo.
Em outro conto de Lovecraft é comum por exemplo apresentar a ideia em uma perspectiva de primeira pessoa, onde o que o leitor lerá é como se fosse ele descobrindo tudo em primeira mão, sem poder, de antemão, capacitar-se do ambiente, dos elementos, do final ou do que virá. É o caso da Fera na Caverna.
Em Outsider de Stephen King a história é contada como se fosse um romance policial comum. E o monstro é representado por uma figura tão humana ao normal, mas que nos faz perguntar se há algo de anormal no caso, dada descrição que faz pouco caso a um famoso episódio de Arquivo-X. Mas tratando como se fosse um episódio comum de House.
Navio Misterioso não tem um pingo de sobrenatural, tampouco terror, de suspense na medida certa. E que nos pensar, ou deduzir, tardiamente, que se tratava apenas de fatos contados pela metade de um conflito entre piratas e a marinha americana.
