Ánimas

Crítica sobre Ánimas (2018) disponível no canal Streaming Netflix.

Origem: Espanha. (Formato: Longa\Filme)

Essa análise possui spoiler.

Escrever uma análise sobre filmes que possuem o desenrolar da trama dentro de um conceito psicológico, prova-se muito mais difícil do que entende-lo no decorrer do tempo. Ánimas não é um filme simples de suspense, terror, da safra típica da Espanha, onde a representação pela violência chega a ser brutal comparado a filmes que são explicitamente violentos, mas objetivos.

Quando falamos ou escrevemos de terror objetivo, ele é ainda mais amenos que a ‘pegada’ da dramatização do terror subjetivo, os terrores da intimidade humana.

Esse filme troca o lado da perspectiva, como no filme a “Aniquilação”, torcemos que a raça humana mais uma vez lute pela sua liberdade e garanta o sustento de todos, mas até quando você percebe que o lado que você torcia mudou e que a situação do novo lado nos compadece, pois como negamos a justificativa?

Então perdemos para a lógica e atendemos o chamado da nova situação, somos contra a nossa própria espécie, a resposta é não. O filme Ánimas permite nos ver sob uma ótica nova dos traumas psicológicos.

Seria as máquinas seres vivos? Trataríamos com igual valor um liquidificador quanto uma máquina que aparenta um ser humano? Ainda que eu faça esse delonga, é necessário fazer as comparações quando falamos desse filme de origem espanhola. E ainda mais quando chegamos no desfecho, ou próximo dele, e nos perguntamos: O que de fato é real?

O filme é dirigido por Laura Alvea e Jose F.Ortuño conta a história de dois amigos Abraham (Ivan Péllicer) e Alex (Clare Durant). Após terminar o ensino médio, Clare começa a ter visões perturbadoras acometendo sobre sua sanidade. A vida de Abraham também não contenta um mar de rosas, o seu pai um homem violento e brutal, desconta em sua mãe, que claramente exprime um comportamento diário de depressão.

A atmosfera do filme também é um indicativo, pode ser considerado um narrador da trama, tantas as cores lúdicas ou sons que apenas indicam que há um segredo na história, muito menos aparente que aquela história de dois amigos, relacionamentos e traumas de infância. Assumo que até um certo momento eu pensava no sobrenatural comum, até perceber que esse sobrenatural é sobrepujado por um outro tipo de mistério.

Você pode encarar a produção como uma forma de ver ou de perceber como nossas sensações podem ser enganadoras. O longa possui também uma cena pós créditos que deixam-no mais misterioso. Porque se até ali você notou que havia algo de estranho e assustador na relação de Abraham e Alex, e ainda presencia aquela cena, sua dúvida é: O filme concluiu certo, é isso mesmo? Ou de fato a realidade era totalmente diferente? Não era nada da cabeça dos personagens?

A trama resolve falar que Alex em determinado momento é na verdade a amiga imaginária da cabeça do Abraham que a criou para enfrentar os problemas de infância e os traumas provocados pelos acessos de raiva e brigas dos pais. Alex é uma representação feminina do lado mais forte de Abraham, que se encontrou em uma forma personalizada que vivia apenas em seu imaginário.

Sozinho, ele vivia entre dois mundos. O de sua mãe e pai e os demais, e o dele e de Alex. Mas Alex não era apenas uma amiga imaginária, era um ser vivo. Tinha uma casa, mãe e um cachorro. Tinha uma memória, tinha uma história. Tanto que se sente ameaçada no filme pela tentativa de expurgo por parte de terapeuta de Abraham. Nossa expectativa é vista pelo seu ponto de vista, contrário as tramas tradicionais, onde como em o filme de Amigo Oculto com Robert De Niro e Dakota Fanning. Ali o foco era quem imaginava.

Aqui o foco é o imaginado. O amigo oculto existe. E temos dentro dessa trama também a complexa relação que Abraham tinha, a ponto da luta mental entre ele e Alex serem tão forte, a ponto de Alex assumir sua identidade e determinado ponto da história, confundir ser o autor da morte do seu pai. Em pensar que parte de sua vida era narrada pela visão de Alex. Quando a sua memória foi descontruída pelo momento. Abraham na verdade presenciou o assassinato do seu pai cometido por sua mãe, ele apenas usou a Alex como justificativa.

Momentos como esse que vemos uma genialidade em demonstrar a sensação de como tapamos os problemas com fatos criados em nossa mente a ponto de virar realidade fatos que na verdade eram invenções. Durante o longa vemos que ninguém olha diretamente para Alex, mas faz menção de parecer que ela está lá. Porque Alex é personificada por Abraham. A cena pós créditos nos permite visualizar que ou Alex existia de fato ou Abraham dispunha de uma personalidade que o filme tenta revelar de uma forma lúcida, mas que nos prende até o final tentando entender se Abraham é de fato normal.

Fiquei surpreso quando vi esse filme, esperava o típico terror da Espanha. Cadeiras voando, movimentos rápidos, crenças populares e o toque de exorcismo, tanto presente nas coletâneas do terror espanhol ou da língua espanhola, não importando o país que as lance. Mas a sua semelhança com as produções americanas para na qualidade dos efeitos, mas a qualidade da narrativa lembrou da forma como M. Night Shyamalan contou a história de Corpo Fechado (1999, Unbreakable).

E ainda senti na mesma pretensão do filme que os personagens e o ambiente se caracterizavam como aqueles histórias que se passam no imaginário, quando ouvimos alguém nos contar algo, e tentamos imaginar o que seria. Ánimas amarra as pontas e consegue abrir uma questão, seria possível uma sequência? Seria Alex produto da imaginação ou uma realidade? Ou seria Abraham o produto da imaginação de Alex?

Nota:

90.0

 

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